“Quando ele era bebê, eu tinha medo de cair água no ouvido dele, na hora do banho. Por isso, tampava com os dedos e secava bem com uma fralda”, relembra a jornalista Juliane Gomes de Andrade Cardoso, 35 anos. Ela ressalta que o filho cresceu, mas a preocupação continua. Júlio César de Andrade Cardoso está com dois anos e meio, e Juliane fica sempre de olho para ele não colocar nada no ouvido. “O meu receio é grande, porque há casos de surdez na minha família, tanto por parte de pai, como por parte de mãe”, esclarece.

E ela está certa. Atitudes como essas são fundamentais para garantir a saúde auditiva e evitar complicações em outras partes do corpo. De acordo com a Academia Brasileira de Otorrinolaringologia Pediátrica (ABOPe), as doenças que atingem ouvido, nariz, faringe e laringe, quando não tratadas direito, interferem no desenvolvimento físico e cognitivo das crianças. Entre as patologias estão a otite, os distúrbios do equilíbrio e a apneia obstrutiva do sono.

A infecção de ouvido – chamada de otite – aparece no ouvido médio, um espaço cheio de ar, localizado atrás do tímpano e é causada por bactérias ou vírus. O tratamento, nos casos extremos, exige o uso de antibióticos. O otorrinolaringologista, Dr. Jessé Lima, explica que a doença afeta 70% da população infantil e pode deixar sequelas. “A otite secretora, por exemplo, pode resultar na perda de audição. E isso ocorre em aproximadamente 15% das meninas e meninos na fase pré-escolar, que vai dos 3 aos 6 anos de idade. Essa perda traz consequências graves como problemas na fala e, com isso, o prejuízo é visível no processo de alfabetização. Serão grandes as dificuldades para aprender a ler e escrever”, explica o otorrino.

Ouvido e equilíbrio: duas palavras que, aparentemente, não estão ligadas, mas trazem uma relação de fundamental importância. Os seres humanos têm o aparelho vestibular, formado por vários órgãos no ouvido interno. Uma das tarefas dessa estrutura é manter o equilíbrio do corpo. Há casos em que infecções, provocadas por vírus ou bactérias, podem resultar em distúrbios. “Quando isso acontece, as crianças não conseguem participar de brincadeiras, que fazem parte do dia a dia, como andar de bicicleta e pular corda e amarelinha. E aí desencadeia um outro problema que é social: o isolamento. A criança fica triste, se afasta ou acaba sendo afastada pela turma, por não conseguir brincar normalmente”, avalia o especialista.

E você já ouviu falar em apneia obstrutiva do sono? Caracteriza-se, principalmente, pelo ronco alto e pela interrupção da respiração ao dormir. Uma pesquisa da ABOPe revela que 3% das crianças em idade pré- escolar têm isso. “É um problema que acarreta outros e bem sérios. A criança que não dorme direito tem o bom funcionamento do hormônio do crescimento prejudicado. Na prática, ela tem peso e altura bem abaixo das outras, com desenvolvimento normal”, alerta o Dr. Jessé. O especialista, por fim, reforça a velha orientação, que, na verdade, tem que ser lembrada sempre. “Cuidar dos ouvidos tem que ser um hábito. E na infância, os pais devem estar atentos para, no futuro, os filhos não serem obrigados a conviver com sequelas irreversíveis”, completa o Dr. Jessé.

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