“Ele ronca muito alto e me incomoda. É cansativo. Eu não consigo dormir a noite toda e acordo cansada com a sensação de que não descansei nem um minuto.” O desabafo é de Bárbara Barbosa Cabral com relação ao problema do marido, que ronca há cinco anos. A economista, que mora em Salvador, classifica a situação até como engraçada. “Certa vez eu acordei ele e pedi que virasse de lado para parar de roncar. Sabe qual foi a resposta? Ficou chateado, reclamou que não podia nem roncar e que, quando eu ronco, ele não me acorda”, conta Bárbara, sorrindo ao se lembrar da cena.

Uma pesquisa recente da Universidade de São Paulo (USP) revela que alguns exercícios podem ser a saída. Eles fortalecem a musculatura da boca e da garganta. O trabalho é feito por um fonoaudiólogo. O método tem surtido efeito, mas é importante lembrar que essa não é a solução para todos, afinal cada caso é um caso. “O tratamento depende da causa. Descobrindo o motivo, o profissional escolhe o melhor jeito de resolver. Digamos que o paciente seja obeso. Considerando que o ronco está associado à obesidade, é fundamental a gente trabalhar a perda de peso, a prática de atividade física e a reeducação alimentar”, explica o otorrinolaringologista Jessé Lima.

O médico destaca ainda os implantes palatais de material sintético colocados no palato – popularmente conhecido como céu da boca. Eles fazem o palato ficar um pouco mais rígido e aí ele vibra menos durante o sono. O otorrino apresenta como outra possibilidade os aparelhos que provocam tensão nos tecidos da faringe e reduzem o problema. E, acredite, há situações em que o profissional opta pela cirurgia. “Se eu tenho um fator anatômico importante que eu consigo corrigir cirurgicamente, eu posso corrigi-lo, sabendo que essa é a causa. Por exemplo, uma hipertrofia (aumento excessivo de uma parte do corpo) de amígdalas, uma flacidez de palato mole, ou um desvio de septo muito grande. Esses podem ser resolvidos numa cirurgia”, esclarece o Dr. Jessé Lima.

Não tem jeito. É necessário saber a raíz do problema. Entre as causas mais comuns estão o estreitamento ou a flacidez de alguma região da via aérea, que vai desde a laringe até o nariz. Quer exemplos? Nariz com algum desvio, língua com um aumento excessivo, mal posicionada ou muito mole. Além disso, a origem do ronco pode estar associada a uma outra questão, como a obesidade, como já citado pelo médico.

A pesquisa da USP trouxe também o dado de que mais da metade dos brasileiros roncam durante o sono, mas a verdade é que poucos se preocupam em colocar um fim nisso. “Meu marido nunca foi ao médico para tratar”, preocupa-se Bárbara Cabral. Nem ele e nem milhares de pessoas que fazem tanto barulho ao dormir, por achar que é comum. Enganam-se. Ronco é considerado uma doença. Isso mesmo que você leu. “Roncar não é normal, ao contrário do que muitos pensam. Há aqueles que roncam uma vez ou outra, porque estão cansados, ou depois de ingerirem muita bebida alcoólica, mas, mesmo assim, não é normal. O ronco, hoje, é um fator de risco para infarto, pressão alta, derrame. Isso é um perigo, não pode ser visto com tranquilidade”, alerta o Dr. Jessé Lima.

Quem ronca mais?

Não há pesquisas que comprovem quem é mais barulhento. Mas, no dia a dia, toma-se mais conhecimento de casos ocorridos com homens. Suspeita-se que a explicação está nos hormônios. A progesterona (hormônio encontrado em grande quantidade no sexo feminino) teria uma capacidade de proteger as mulheres deste problema. Os dados apontam que as vítimas, digamos assim, têm  entre 35 e 65 anos.

Elas não são maioria, mas há muitas mulheres que convivem com o “ronc ronc”. A autônoma Cirleide Dória conhece bem isso. Ficamos sabendo dela por meio da filha, a estudante Michele Dória, também de Salvador. “Minha mãe ronca muito. É terrível“, afirma Michele. Fomos atrás da Cirleide para saber essa história. Ela disse que tudo começou há 15 anos. “Eu pareço um homem dormindo”, começa a falar de forma bem humorada. “O barulho só aumenta com o passar do tempo, mas nunca fui atrás de ajuda. Uma vez, dividi o quarto durante 15 dias com uma colega de trabalho. Foi constrangedor. Ela me acordou a noite inteira. O pior é que a gente que ronca não escuta”, conclui Cirleide.

O marido da autônoma Elaine Cristina Silva já não sabe mais o que fazer. Ela relatou que as noites são movimentadas. ”Ele ronca alto e ao mesmo tempo fica babando. Até já se engasgou enquanto estava roncando. É complicado, chega a ser engraçado”, finaliza Elaine.

Um detalhe importante é estar atento a isso desde cedo. Os pais devem sempre ficar de olho na respiração dos filhos. O correto é, sempre, inspirar e expirar o ar pelo nariz. “A boa respiração nasal é uma das principais formas de prevenir. Além disso, vale a pena ressaltar aquela velha recomendação de manter uma vida saudável, como um todo. Boa alimentação, atividade física regular e controle do peso. Parece que não tem nada a ver, mas isso faz toda a diferença”, recomenda o Dr. Jessé.

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